Vale procurar um psicólogo para um adolescente quando mudanças de humor, de comportamento ou de rotina deixam de ser passageiras e passam a afetar, por semanas, a escola, as amizades, o sono ou o bem-estar do jovem. A adolescência é uma fase de muitas transformações, e oscilações fazem parte. Mas nem todo sofrimento é “coisa da idade”.
Para os pais, a dúvida costuma ser justamente essa: como saber se é só uma fase ou se é hora de buscar ajuda? Este texto foi escrito para ajudar nessa resposta.
O que é esperado na adolescência
Algumas mudanças fazem parte do desenvolvimento e, sozinhas, não indicam um problema:
- Querer mais privacidade e passar mais tempo no quarto
- Dar mais importância aos amigos do que à família
- Questionar regras e opiniões dos pais
- Ter oscilações de humor ao longo do dia
- Mudar de interesses, de estilo e de gostos
Sinais de que é hora de buscar ajuda
Estes sinais merecem atenção, especialmente quando duram mais de duas semanas ou aparecem de forma intensa:
- Isolamento que se estende também aos amigos
- Tristeza, irritabilidade ou explosões frequentes
- Perda de interesse por coisas de que antes gostava
- Mudanças importantes no sono ou na alimentação
- Queda brusca no rendimento escolar ou recusa em ir à escola
- Uso excessivo e descontrolado de telas, jogos ou redes sociais
- Uso de álcool ou outras drogas
- Sinais de bullying, sofrido ou praticado
- Falas de desesperança, como “nada vai dar certo” ou “seria melhor não existir”
- Machucados sem explicação ou sinais de automutilação
Vale lembrar que, nessa fase, a depressão muitas vezes não aparece como tristeza, e sim como irritação, isolamento e queda nas notas. E que o uso descontrolado de telas e jogos também é uma demanda frequente no consultório, como explico na página sobre vícios.
Falas sobre morte, sobre não querer viver ou sinais de autolesão pedem ajuda imediata. Ligue para o CVV no 188 (gratuito, 24 horas), para o SAMU no 192 ou procure a emergência mais próxima.
Reta final do ano: ENEM, vestibulares e pressão
Novembro costuma ser um dos meses mais tensos para quem está terminando o ensino médio. Em 2026, o ENEM acontece nos dias 8 e 15 de novembro, e vários vestibulares se concentram nas mesmas semanas. É natural sentir alguma ansiedade. O sinal de alerta é quando ela passa a tirar o sono, o apetite e a capacidade de estudar.
Alguns cuidados ajudam nessa fase:
- Proteja o sono. Madrugadas de estudo na véspera costumam atrapalhar mais do que ajudar.
- Evite aumentar a pressão. Comparações e cobranças sobre a nota raramente melhoram o desempenho.
- Diga em voz alta o que parece óbvio. O valor do seu filho não depende do resultado de uma prova.
- Mantenha momentos de descanso e convívio, mesmo na reta final.
- Esteja disponível para ouvir, sem transformar toda conversa em conversa sobre estudo.
Se a ansiedade estiver intensa, com crises, choro frequente ou bloqueios na hora de estudar, o acompanhamento psicológico pode ajudar o jovem a atravessar esse período com mais equilíbrio. Escrevi sobre o que fazer durante uma crise de ansiedade em outro texto do blog.
Como falar com o adolescente sobre terapia
A forma como a proposta é feita faz diferença:
- Não apresente a terapia como castigo nem como sinal de que “tem algo errado” com ele
- Explique que é um espaço só dele, com sigilo
- Conte o que você tem percebido, sem acusações: “tenho notado que você anda mais cansado e quieto, e fico preocupado”
- Envolva o jovem na decisão, inclusive na escolha do formato, presencial ou online
- Proponha uma primeira conversa, sem compromisso de continuar
É comum que o adolescente resista no início. Muitas vezes, a resistência diminui depois da primeira sessão, quando ele percebe que não vai ser julgado nem ouvir sermão.
Como funciona a terapia com adolescentes
As sessões são individuais e acontecem com frequência regular, em geral semanal. O espaço é do adolescente: ele fala sobre o que quiser, no ritmo dele.
Os pais também têm um papel importante. É comum haver conversas com os responsáveis no início do processo e em momentos combinados, para alinhar o que for necessário.
Sobre o sigilo, o Código de Ética Profissional do Psicólogo estabelece que, no atendimento de adolescentes, os responsáveis sejam informados apenas do estritamente essencial para que se promovam medidas em benefício do jovem. Situações de risco são sempre comunicadas. É esse cuidado que permite ao adolescente confiar no processo. O mesmo código prevê que o atendimento contínuo de menores de idade tenha a autorização de ao menos um dos responsáveis.
Online ou presencial?
Os dois formatos funcionam bem com adolescentes, que costumam se sentir à vontade com a tecnologia. No atendimento online, o mais importante é garantir privacidade: um cômodo reservado, porta fechada e fone de ouvido, para que o jovem possa falar sem receio de ser ouvido pela família. Atendo nos dois formatos: presencial em Curitiba e online.
E os pais, como ficam?
Ver um filho sofrendo mexe muito com a família. Culpa, medo e sensação de impotência são comuns. Cuidar de si também faz parte do cuidado com o adolescente, e buscar orientação para lidar com essa fase não é sinal de fracasso como pai ou mãe.
Perguntas frequentes
O psicólogo conta para os pais o que o adolescente fala?
Não. O conteúdo das sessões é sigiloso. Os responsáveis são informados apenas do que for estritamente essencial para o bem-estar do jovem, como em situações de risco.
Meu filho não quer ir ao psicólogo. O que fazer?
Evite forçar. Converse sobre o que você tem observado, explique como funciona a terapia e proponha uma primeira conversa. Os pais também podem falar antes com o psicólogo para pensar juntos na melhor forma de fazer o convite.
Precisa de autorização dos pais?
Sim. Para o atendimento contínuo de menores de 18 anos, é necessária a autorização de pelo menos um dos responsáveis.
Quanto tempo dura a terapia para adolescentes?
Depende da demanda e do ritmo de cada jovem. Algumas questões se resolvem em poucos meses; outras pedem um acompanhamento mais longo.
Ansiedade antes do ENEM é normal?
Um pouco de nervosismo é esperado e até ajuda a manter o foco. Quando a ansiedade tira o sono, provoca crises ou impede o estudo, vale buscar apoio.
Um espaço para conversar
Se você está preocupado com seu filho ou sua filha e quer ter a oportunidade de conversar sobre o que tem observado em casa, estou por aqui. O primeiro contato pode ser feito por você.
Importante: este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento profissional. Se você ou alguém próximo estiver passando por um momento de crise, ligue para o CVV no 188 (gratuito e disponível 24 horas) ou procure a emergência mais próxima.
José Luís F. Bueno Junior é psicólogo clínico (CRP PR 08/10994) em Curitiba, com mais de 20 anos de experiência no atendimento presencial e online de adolescentes, adultos e idosos.

